PRP na epicondilite lateral (cotovelo de tenista): o que é, para quem é indicado e o que a ciência mostra

Dor na parte de fora do cotovelo ao segurar uma xícara, apertar a mão de alguém, torcer um pano ou usar o mouse? Esse é o quadro típico da epicondilite lateral, conhecida como “cotovelo de tenista”, embora a maioria dos pacientes nunca tenha jogado tênis.

Neste artigo, explico de forma simples o que é o PRP (plasma rico em plaquetas), quando ele pode fazer parte do tratamento e, principalmente, o que os estudos científicos mostram até aqui.

Tubo de sangue sendo colocado na centrífuga para preparo do PRP
O PRP é preparado a partir do próprio sangue do paciente, em uma centrífuga.

O que é a epicondilite lateral

Na parte de fora do cotovelo fica um pequeno relevo ósseo, o epicôndilo lateral. Nele se prendem os tendões dos músculos que estendem o punho e os dedos.

Com o uso repetido (trabalho manual, ferramentas, digitação, esportes de raquete, academia), um desses tendões pode sofrer pequenas lesões que o corpo não consegue reparar por completo. O resultado é um tendão “desgastado”, com dor ao fazer força. Por isso, hoje se fala mais em tendinopatia do que em inflamação.

É mais comum entre os 35 e os 55 anos e costuma afetar o braço dominante.

Primeiro, uma boa notícia

A maioria dos casos melhora sem procedimento. Em um estudo publicado no JAMA, mais de 9 em cada 10 pacientes que não receberam infiltração com corticoide estavam recuperados ou muito melhores após um ano [1].

Por isso, o tratamento começa quase sempre de forma simples:

  • ajustar as atividades que provocam dor, sem imobilizar o braço;
  • exercícios orientados para fortalecer o tendão aos poucos;
  • órtese (faixa) no antebraço, em alguns casos;
  • analgésicos por curtos períodos, quando necessário.

O PRP entra na conversa quando a dor persiste por meses apesar desses cuidados e atrapalha o trabalho, o sono ou as atividades do dia a dia.

O que é o PRP

O PRP é preparado a partir do seu próprio sangue. As plaquetas, além de ajudarem na coagulação, carregam substâncias (fatores de crescimento) que participam dos processos naturais de reparo dos tecidos.

Ao concentrar essas plaquetas e aplicá-las no tendão doente, a ideia é estimular a resposta de reparo em uma região que, sozinha, não estava conseguindo se recuperar.

Como o material vem do próprio paciente, não há risco de rejeição.

Como o procedimento é feito

Tudo é realizado no consultório, em cerca de uma hora:

  1. Coleta: retiramos uma pequena quantidade de sangue do braço, como em um exame de rotina.
  2. Preparo: o sangue vai para uma centrífuga, que separa e concentra as plaquetas.
  3. Aplicação guiada por ultrassom: após anestesia local, o PRP é aplicado exatamente na área doente do tendão, que vemos na tela do ultrassom. Isso aumenta a precisão e a segurança.

Você volta para casa no mesmo dia.

Seringas com PRP após a centrifugação: plasma amarelo acima e hemácias abaixo
Após a centrifugação: o plasma (amarelo) fica em cima e as hemácias (vermelhas) embaixo.

O que a ciência mostra

Aqui vale ser transparente: o PRP na epicondilite é um dos temas mais estudados da medicina regenerativa, mas os resultados não são iguais em todos os estudos.

Estudos que favorecem o PRP:

  • Em um estudo com 100 pacientes na Holanda, 73% dos que receberam PRP tiveram sucesso no tratamento após um ano, contra 49% dos que receberam corticoide [2]. A diferença se manteve após dois anos [3].
  • Um estudo multicêntrico com 230 pacientes não encontrou diferença em 12 semanas, mas, em 24 semanas, o grupo do PRP teve mais sucesso (84% contra 68%) e menos dor ao toque [4].
  • Uma revisão de 11 estudos (730 pacientes) mostrou um padrão interessante: o corticoide alivia mais rápido (nos primeiros 2 meses), enquanto o PRP teve melhores resultados a partir de 6 meses [5].
  • Uma análise de 2025 sugeriu que a qualidade do preparo importa: os estudos com PRP mais concentrado (acima de 3 vezes a concentração do sangue) tiveram resultados melhores [6].

Estudos que pedem cautela:

  • Um estudo dinamarquês com 60 pacientes não encontrou diferença, em 3 meses, entre PRP, corticoide e soro fisiológico [7].
  • Uma revisão de 2021 também não encontrou vantagem clara do PRP sobre os grupos de comparação, com base em poucos estudos [8].

Em resumo: o PRP é seguro e tem bons resultados em parte dos pacientes, principalmente no médio e longo prazo. Mas a resposta varia de pessoa para pessoa, e ele não substitui a reabilitação. Ele funciona melhor como parte de um plano completo.

E a infiltração com corticoide?

O corticoide costuma aliviar a dor rapidamente, por isso ainda é muito usado. Mas, no mesmo estudo do JAMA, os pacientes que receberam corticoide tiveram mais recaídas (54% contra 12%) e resultado pior após um ano [1]. Por isso, hoje ele é usado com mais critério no cotovelo.

Para quem o PRP pode ser indicado

A indicação é sempre individual, depois de consulta e exame. Em geral, consideramos o PRP quando:

  • a dor dura mais de 3 meses;
  • o tratamento inicial (ajuste de atividades e exercícios) não trouxe melhora suficiente;
  • o diagnóstico foi confirmado pelo exame físico e, quando necessário, por ultrassom.

O PRP não é indicado, por exemplo, em casos de infecção no local, alterações importantes de coagulação ou das plaquetas, câncer em tratamento e gestação.

O que esperar depois

  • Primeiros dias: é comum o cotovelo ficar dolorido por 2 a 5 dias. Isso faz parte da resposta ao procedimento.
  • Primeiras semanas: repouso relativo, evitando esforço com aquele braço. Anti-inflamatórios costumam ser evitados nesse período, porque podem atrapalhar a resposta das plaquetas.
  • Depois: retorno gradual aos exercícios de fortalecimento.
  • Resultados: a melhora costuma ser progressiva, ao longo de semanas a meses, e não imediata.

Em muitos casos, uma aplicação é suficiente. Em alguns, uma segunda aplicação pode ser discutida na reavaliação.

Perguntas frequentes

Dói?
A aplicação é feita com anestesia local. O incômodo maior costuma ser nos dias seguintes e passa com cuidados simples.

Preciso me afastar do trabalho?
Depende da sua função. Para atividades leves, o retorno costuma ser rápido. Para trabalho braçal, combinamos um tempo de proteção.

O PRP evita a cirurgia?
A maioria dos pacientes com epicondilite não precisa de cirurgia. O PRP é uma opção para quem não melhorou com o tratamento inicial, antes de pensar em cirurgia, mas não há como garantir o resultado.

Posso fazer PRP em outras regiões?
Sim. Hoje, as principais indicações que realizamos são epicondilite lateral, artrose do joelho e discopatia lombar. Saiba mais na página sobre PRP.

Quer saber se o PRP é uma opção para você?

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Leia também: Epicondilite (cotovelo de tenista) · Dor no cotovelo

Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica.


Referências

  1. Coombes BK, Bisset L, Brooks P, Khan A, Vicenzino B. Effect of corticosteroid injection, physiotherapy, or both on clinical outcomes in patients with unilateral lateral epicondylalgia: a randomized controlled trial. JAMA. 2013;309(5):461-9. https://doi.org/10.1001/jama.2013.129
  2. Peerbooms JC, Sluimer J, Bruijn DJ, Gosens T. Positive effect of an autologous platelet concentrate in lateral epicondylitis in a double-blind randomized controlled trial: platelet-rich plasma versus corticosteroid injection with a 1-year follow-up. Am J Sports Med. 2010;38(2):255-62. https://doi.org/10.1177/0363546509355445
  3. Gosens T, Peerbooms JC, van Laar W, den Oudsten BL. Ongoing positive effect of platelet-rich plasma versus corticosteroid injection in lateral epicondylitis: a double-blind randomized controlled trial with 2-year follow-up. Am J Sports Med. 2011;39(6):1200-8. https://doi.org/10.1177/0363546510397173
  4. Mishra AK, Skrepnik NV, Edwards SG, et al. Efficacy of platelet-rich plasma for chronic tennis elbow: a double-blind, prospective, multicenter, randomized controlled trial of 230 patients. Am J Sports Med. 2014;42(2):463-71. https://doi.org/10.1177/0363546513494359
  5. Xu Y, Li T, Wang L, Yao L, Li J, Tang X. Platelet-rich plasma has better results for long-term functional improvement and pain relief for lateral epicondylitis: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Am J Sports Med. 2024;52(10):2646-2656. https://doi.org/10.1177/03635465231213087
  6. Oeding JF, Varady NH, Messer CJ, Dines JS, Williams RJ, Rodeo SA. Platelet concentration explains variability in outcomes of platelet-rich plasma for lateral epicondylitis: a systematic review and meta-analysis with meta-regression. Am J Sports Med. 2025;53(10):2489-2496. https://doi.org/10.1177/03635465241303716
  7. Krogh TP, Fredberg U, Stengaard-Pedersen K, et al. Treatment of lateral epicondylitis with platelet-rich plasma, glucocorticoid, or saline: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Am J Sports Med. 2013;41(3):625-35. https://doi.org/10.1177/0363546512472975
  8. Lapner P, Alfonso A, Hebert-Davies J, et al. Nonoperative treatment of lateral epicondylitis: a systematic review and meta-analysis. JSES Int. 2022;6(2):321-330. https://doi.org/10.1016/j.jseint.2021.11.010
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Dr. Gustavo Vicenzi
Dr. Gustavo VicenziMédico ortopedista e traumatologista · Cirurgia do ombro e cotovelo · Doutor em Ciências da Cirurgia (Unicamp) · CRM-PR 26831 · RQE 16846Conheça a trajetória →
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